Clube da Gurizadinha falando sobre: ansiedade na infância

Por CLUBE DA GURIZADINHA      11/11/2020 09:47:38    
     O mundo moderno tem facilitado muito nossa vida. As revoluções industrial e tecnológica nos possibilitaram mais entretenimento, mais agilidade, maiores oportunidades, maior renda. No entanto, o que presenciamos é uma sociedade de pessoas com alto nível de estresse e ansiedade, que não conseguem usufruir verdadeiramente de uma qualidade de vida.

     Infelizmente, a ansiedade não atinge somente os adultos, nossas crianças também estão acometidas de ansiedade desde a mais tenra infância, e mesmo o bebê já se sente ansioso, se o meio não lhe for favorável e seguro.

     Desse modo, em um certo nível, a ansiedade em bebês e crianças pequenas faz parte do processo de desenvolvimento infantil, e cabe aos pais construírem um ambiente familiar suficientemente bom, a fim de poderem ser continente para essa ansiedade, ou seja: acolhê-la, contê-la, suavizá-la e devolver essa angústia intolerável à criança de um modo que ela seja capaz de suportá-la. Os pais, assim, funcionam como mediadores na construção da capacidade de autorregulação emocional da criança, responsável por sua habilidade futura de lidar com situações externas e gerenciar adequadamente suas respostas ao meio.

     Embora as crianças ao natural apresentem um certo nível de ansiedade, há situações em que a mesma começa a atrapalhar o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança e, nesse caso, ela passa a ser patológica.

     O termo ansiedade, segundo definição do Dicionário de Psicologia, significa “uma emoção gerada pela antecipação de um perigo difuso, difícil de prever e controlar” (DORON;PAROT, 1998, p. 67). Ou seja, é um medo que não se sabe ao certo de que, pois qualquer estímulo é sentido como ameaçador. Essa é a situação pela qual muitas crianças estão passando, especialmente quando o ambiente onde os bebês e crianças vivem não é tranquilo, há a existência de relações conturbadas, falta de harmonia, muitas discussões, críticas e reclamações, agressões verbais, emocionais ou até mesmo físicas, ou quando ocorrem queixas excessivas sobre trabalho, dinheiro e até mesmo das próprias crianças. Desse modo, à medida que a criança cresce, assume o conflito como sua culpa: “Se eu não estivesse aqui, papai e mamãe não brigariam tanto”, “É por minha culpa que eles estão sem dinheiro e precisam trabalhar tanto”, ou seja, a criança pensa que a culpa é dela.

     Outro fator motivador para a ansiedade em crianças é quando ocorre uma desorganização da ordem previamente estabelecida. A desorganização só acontece quando já houve uma prévia organização. Não é possível desorganizar o que ainda não foi organizado, e o bebê nasce inorganizado, isto é, não tem ordem. São os cuidados da mãe, o banho, o preparo para dormir, as regras que são estruturantes para a formação psíquica do infante, levando-o a assimilar o que vem antes e o que vem depois, horário para banho, para dormir, para se alimentar. Essas regras são organizadoras. Assim, aos poucos, a criança começa a reconhecer os objetos e a ordem que segue, desse modo criando sua imagem corporal. Ao mesmo tempo, vai organizando, instrumentalizando, criando recursos internos para lidar com as diferentes situações.

     Quando acontecem situações na vida da criança que mudam essa rotina de organização, isso é sentido pela criança com muita ansiedade. Um exemplo claro é este período da pandemia, em que, de uma hora para outra, foi necessário organizar uma nova rotina, uma nova forma de agir, trocando o ambiente escolar presencial pelas aulas online. As crianças sentiram o seu mundo todo “virar de cabeça para baixo”, não poder jogar um futebol com os amigos, privadas de visitar os avós, além de ter que criar novas rotinas e novos horários. Essas situações são desorganizadoras e necessitam de novas adaptações.

     Nesses momentos, é de fundamental importância o auxílio dos pais com o intuito de fazer uso da criatividade, a fim de encontrar substitutos para as atividades que a criança gosta, ajudando-a a organizar uma nova agenda.

     A falta de coerência entre os pais também pode desencadear um quadro de ansiedade. A criança que chegou ao mundo confia tanto na mãe quanto no pai, ambos representando autoridade para ela. Não conhecendo nada das regras do mundo, ela aprende a se mover nele conforme orientação dos pais. Desse modo, se não houver coerência entre ambos, um dizendo uma coisa, outro dizendo outra, estarão forçando a criança a desobedecer a autoridade de um deles, e isso causa muita ansiedade nela, confusa por não saber a quem obedecer.

     Também é importante ressaltar a coerência do que os pais dizem e fazem perante a criança. Para Bowlby (1989 p.20), “todos os detalhes são aprendidos, alguns durante a interação com os bebês e crianças e muito através da observação de como os pais se comportam. O processo começa na infância desse futuro pai, da forma como seus pais o tratam e a seus irmãos/irmãs”.

     A ansiedade infantil se manifesta nas diferentes formas de medos, que variam de medo do escuro, de fantasmas, de dormir sozinho, de perder os pais, entre outros. E esses medos não desaparecem mesmo que a criança veja que o perigo não existe.

     A causa é de ordem emocional e pode apresentar sintomas físicos, como dor de barriga, dor de cabeça, xixi na cama (enurese), vômitos, distúrbios alimentares, falta de apetite, inquietações, rigidez muscular.

     Em casos mais graves, de uma ansiedade crônica, a criança passa a ter prejuízos: uma agitação constante, geralmente passando a ter problemas no colégio, mudança na maneira de falar, atitudes regressivas, como chupar o dedo, onicofagia (roer as unhas) ou tricotilomania (arrancar o cabelo).

     Por outro lado, o excesso de estímulos externos e atividades, tais como balé, cursinhos, atividades esportivas, tem tornado as crianças muito estressadas, pois precisam dar conta de uma agenda que não condiz com sua idade cronológica e emocional, consequentemente as levando a um excesso de preocupações. Em muitas situações, os pais tentam realizar através da criança aquilo que gostariam de ter realizado em suas próprias vidas durante a infância. Desse modo, enchem a cabecinha da criança de pré-ocupações, o que se denominou de “mente tagarela”. Ou seja, a mente não para e a ansiedade torna a pessoa extremamente agitada.

     A ansiedade é inerente à condição humana, está presente em todo o nosso processo de evolução e organização, e os contos de fadas são um excelente recurso para de modo indireto dialogar com a ansiedade da criança. Quando o protagonista sobrevive ao perigo, damos um suspiro, aliviados, pois nós também sobrevivemos a outro ataque de ansiedade. Um exemplo é o conto dos irmãos Grimm, “A moça dos gansos”, que ajuda a aliviar a ansiedade de separação da mãe. Outro exemplo é o conhecido conto de fadas “Os três porquinhos”, que auxilia a mitigar a ansiedade da organização da fase oral do desenvolvimento infantil, que ocorre até por volta dos 18 meses de idade.  Segundo as colocações de Kast (2006), a partir dessa perspectiva, praticamente não há um conto de fadas que não lide com a ansiedade. Ou seja, os contos possibilitam à criança criar caminhos alternativos para os dilemas, pois, ao reconhecer o dilema que está enfrentando a partir do personagem do conto, é possível visualizar estratégias de saída.

     “A ansiedade é inerente à condição humana e somos confrontados pela ansiedade em todos os passos do nosso caminho”.

     Naturalmente que, quando o nível de ansiedade for alto, de modo a que a criança não consiga lidar com o mesmo, é necessária a intervenção de um profissional.


Referencial:
Bowlby, John. Uma Base Segura: Aplicações Clínicas Da Teoria Do Apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
BRAGA, Cristiane. Ansiedade: O mal do século.
DORON, Roland; PAROT, Françoise. Dicionário de psicologia. São Paulo: Ática, 1998.
KAST, Verena. Ansiedade as formas de lidar com ela nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2006.

Texto produzido por:
Psicanalista Odete Teresinha Bittencourt

Psicanalista em formação Carine Daniele Franke

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